Sabia que a ferritina baixa é a carência mais comum nas mulheres?
- Dra Andreia de Almeida

- 17 de ago.
- 5 min de leitura
Já alguma vez sentiu que o seu corpo deixou de ser o mesmo? Acorda cansada, mesmo depois de uma noite inteira de sono. O cabelo cai e o stress é uma constante. E se o seu corpo estiver apenas a tentar dizer-lhe que lhe falta algo essencial?

Sente que a sua energia desapareceu, que a concentração já não é a mesma e que, sempre que passa a escova no cabelo, ficam mais fios do que gostaria de admitir. Talvez tenha pensado que era apenas stress. A idade. A maternidade. O excesso de trabalho. Ou simplesmente “a vida”. Mas e se o seu corpo estiver apenas a tentar dizer-lhe que lhe falta algo essencial?
Uma das deficiências nutricionais mais frequentes nas mulheres é também uma das mais ignoradas: a ferritina baixa.
Numa abordagem funcional aprendemos a olhar para além dos valores “normais” das análises. Porque um organismo não espera por um diagnóstico de anemia para começar a sofrer. Muito antes disso, pode já estar a enviar pequenos sinais de que as suas reservas de ferro estão a esgotar-se. E quando aprendemos a ouvir esses sinais, muitas vezes mudamos completamente a forma como nos sentimos.
O que é, afinal, a ferritina?
Imagine que o ferro é como o combustível de que todas as células do seu corpo precisam para funcionar. A ferritina é o depósito onde esse combustível fica armazenado.
Sempre que o organismo necessita de produzir energia, transportar oxigénio, fortalecer o sistema imunitário ou fabricar neurotransmissores responsáveis pelo foco, memória e bem-estar emocional, vai buscar ferro a essa reserva. Quando o depósito começa a esvaziar, o corpo continua a funcionar… mas já não da mesma forma.
É por isso que pode sentir um cansaço profundo, dificuldade em pensar com clareza ou uma queda de cabelo persistente, mesmo quando as análises ainda não mostram anemia.
A ferritina baixa é muitas vezes o primeiro aviso de que as reservas de ferro estão a desaparecer.
Os sintomas que tantas mulheres aprendem, erradamente, a normalizar
Há algo que observo repetidamente: muitas mulheres habituam-se a viver cansadas. Adaptam-se. Convencem-se de que é normal precisar de café para sobreviver ao dia, sentir-se esgotadas ao final da tarde ou esquecer palavras a meio de uma conversa. Mas estes sintomas não devem ser encarados como uma consequência inevitável de ser mulher.
Uma ferritina baixa pode manifestar-se através de:
Cansaço constante
Falta de energia
Queda de cabelo
Unhas frágeis
Pele mais pálida
Dificuldade de concentração
Sensação de “mente enevoada” (brain fog)
Tonturas
Falta de ar ao fazer esforço
Sensação permanente de frio
Pernas inquietas durante a noite
Dores de cabeça frequentes
Nenhum destes sintomas, isoladamente, confirma uma deficiência de ferro. Mas quando vários aparecem ao mesmo tempo, vale a pena investigar. Porque o corpo raramente fala uma única vez.
Porque é que tantas mulheres têm ferritina baixa?
A resposta está muitas vezes na própria biologia feminina. Todos os meses, durante a menstruação, perdemos sangue e, com ele, ferro. Se essa perda é abundante, as reservas podem diminuir lentamente ao longo dos anos, sem que nos apercebamos.
A gravidez aumenta ainda mais as necessidades de ferro, uma vez que o organismo passa a alimentar duas vidas em simultâneo. Mas existem outras causas igualmente importantes.
Uma alimentação pobre em alimentos ricos em ferro, dificuldades de absorção intestinal, alterações digestivas, doenças inflamatórias ou pequenas perdas de sangue no aparelho digestivo podem contribuir para uma deficiência silenciosa.
Não podemos perguntar apenas “o que está baixo?”. Perguntamos sobretudo: “Porque é que isto aconteceu?” Porque aumentar a ferritina sem compreender a causa é como encher um balde que continua a ter um furo.
Ferritina baixa não significa necessariamente anemia
Este é um dos maiores equívocos. Muitas pessoas ouvem dizer que “não têm anemia” e concluem automaticamente que tudo está bem.
Nem sempre. A anemia surge quando a hemoglobina já diminuiu. A ferritina, por outro lado, mostra-nos quanto ferro ainda existe armazenado. É perfeitamente possível ter reservas quase esgotadas, sentir todos os sintomas associados e, ainda assim, apresentar uma hemoglobina considerada normal.
É precisamente por isso que olhar apenas para um marcador laboratorial pode deixar escapar aquilo que o corpo já está a tentar comunicar.
Como recuperar as reservas de ferro
A boa notícia é que, quando identificamos a verdadeira causa, é possível recuperar. Tudo começa pela alimentação. Carnes, peixe, marisco, leguminosas, vegetais de folha verde escura e sementes podem contribuir para aumentar a ingestão de ferro. Sempre que possível, combine estes alimentos com fontes de vitamina C, que favorecem significativamente a sua absorção.
Em algumas situações, contudo, a alimentação por si só não é suficiente. Quando existe uma deficiência confirmada, poderá ser necessária suplementação, sempre orientada por um profissional de saúde. Nem todos os suplementos são iguais e nem todas as pessoas absorvem o ferro da mesma forma. Além disso, uma suplementação inadequada pode causar efeitos gastrointestinais ou mascarar problemas que precisam de ser tratados.
Mais importante ainda do que aumentar os valores é perceber porque diminuíram. Será uma menstruação muito abundante? Existe alguma alteração digestiva? Há inflamação intestinal? A absorção está comprometida?
São estas perguntas que permitem encontrar soluções duradouras.
Existe um valor “ideal” de ferritina?
Os intervalos de referência laboratoriais ajudam-nos, mas não contam toda a história. Um resultado dentro do intervalo de referência nem sempre significa que o organismo esteja a funcionar de forma ótima. Por isso, a interpretação da ferritina deve ser sempre integrada com a história clínica, os sintomas, a alimentação, o estado hormonal e outros marcadores analíticos, como a hemoglobina, a saturação da transferrina, o ferro sérico e a proteína C reativa (PCR), uma vez que a ferritina também aumenta em situações de inflamação.
Na prática, muitos profissionais consideram que valores de ferritina entre aproximadamente 50 e 100 ng/mL são frequentemente compatíveis com reservas de ferro adequadas para a maioria das mulheres, embora o intervalo ideal possa variar de acordo com a idade, o sexo, o estado fisiológico (como gravidez), a presença de doença crónica e os objetivos de saúde de cada pessoa. O objetivo não é simplesmente aumentar um marcador laboratorial, mas restaurar as reservas de ferro de forma segura e sustentável, permitindo que o organismo recupere a sua capacidade de produzir energia, transportar oxigénio e funcionar no seu melhor.
Ouça o seu corpo antes que ele grite
O corpo comunica connosco muito antes de desenvolver doença. Primeiro sussurra. Depois insiste. E só mais tarde começa a gritar através de sintomas que já não conseguimos ignorar.
Se vive com um cansaço inexplicável, sente que perdeu vitalidade, que o cabelo está mais fino ou que já não se reconhece na energia que tinha há alguns anos, não aceite
automaticamente que “é normal”. Talvez não seja. Talvez seja apenas o seu organismo a pedir-lhe atenção.
Publicação aqui.




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